A CRÔNITA A SEGUIR É DE AUTORIA DE ZECA BALEIRO, CANTOR E COMPOSITOR. FOI TRANSCRITA DA COLUNA ÚLTIMA PALAVRA, EDITADA NA REVISTA ISTO É, Nº 2167, DA QUARTA SEMANA DE MAIO DE 2011. A CRIATIVIDADE DO AUTOR, NOS CHOCA, MAS É UMA REALIDADE QUE SEMPRE ENCONTRAMOS NO NOSSO DIA A DIA.
- O mundo precisa dos pobres. Demorei a entender isso, mas agora sei: o mundo sem pobres é inconcebível.
Aquela frase dita assim., de chofre, no meio de uma conversa informal. me chocou, confesso.
- Por muito tempo algumas pessoas lutaram pelo fim da pobreza. Eu próprio fui um deles. Mas agora entendo que a pobreza é necessária ao equilíbrio da planeta - ele continuou.
- Equilíbrio? Como assim?
- Imagine um mundo só de ricos... Um mundo em que ninguém precise de nada, que seja autossuficiente e abastado...
- Hmmm...
- Viu? Você nem consegue imaginar, porque é mesmo impossível. São esses pobres que sustentam o capitalismo, não os ricos. São os pobres que fazem a roda do capital girar. Onde há pobreza há desejo. Onde há desejo há consumo. Se as pessoas consomem, a rede da economia gira, entende?
Eu permanecia mudo. Embora reconhecesse que havia algo tecnicamente correto naquele raciocínio, sua fala me soava demasiadamente cínica. Prosseguiu em sua teoria.
- Quem são os maiores vendedores de discos?
- Os artistas populares, imagino, falei.
- Pois é, artistas populares, aqueles que são ouvidos pelos pobres, certo?
- Acho que sim.
- Quais as lojas com maior receita? As lojas que vendem artigos populares, certo?
- Acho que sim também, não sei...
- Eu sei, vai por mim. Melhor ter um boteco em Pirituba do que uma loja de chapéus de grife no shopping Iguatemi. O custo/benefício é mais vantajoso.
- Nunca parei pra pensar nisso.
- Rico não consome porque tem um desejo genuíno ou uma necessidade vital. Rico consome glamour, porque quer ser visto com o barco, o carro novo, a casa projetada pelo arquiteto hype... Pobre não. Pobre faz seu "puxadinho, ergue sua laje e fica feliz da vida, porque ainda que se orgulhe em mostrar pro vizinho, não o fez só por isso. Fez porque tinha a real necessidade daquilo.
E quem precisa fazer faz. Quem precisa comprar compra.
- Mas o capital está nas mãos dos ricos.
- Sim, mais foi ganho à custa de pobres, não de outros ricos.
- Sim, mas há serviços que pobres não consomem, apenas ricos.
- Sim, há. Mas nenhuma fortuna é erguida sem a participação dos pobres.
- Como assim?
- Tá vendo aquele condomínio de luxo? Imagina quantos pobres trabalharam para erguê-lo? E quantos outros agora trabalham para mantê-lo funcionando?
- Não sei.
- Muitos, acredite. Tá vendo aquele shopping acolá?
Entre e faça uma enquete. Aposto que há mais pobres circulando por lá do que ricos.
- Mas...
- Acredite no que tô falando. Dinheiro para o rico é esporte. Para o pobre é paixão.
23.05.2011.
J O D A F E.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
terça-feira, 17 de maio de 2011
NÃO SE APRENDE A AMAR
VEJA QUE INTERESSANTE E CRIATIVO O ARTIGO ABAIXO TRANSCRITO DO JORNAL ESTADO DE MINAS, DE 16.05.2011, CADERNO DE CULTURA E DE AUTORIA DO JORNALISTA ALCIONE ARAÚJO.
Quais os principais problemas que você vive ou viveu em seus relacionamentos amorosos? - perguntou a professora Mirian Goldenberg, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em sexualidade e conjugalidade, a homens e mulheres. Contradição instigante: sempre ouvi e ainda ouço maravilhas do amor e horrores dos relacionamentos.
Não surpreende que os problemas mais frequentes sejam infidelidade e ciúme - reflexos da incerteza do amor. Em toda época, cultura e civilização a dupla bomba. Daí a grande maioria dos romances, peças teatrais e filmes tratarem do tema. Surpreende é que infidelidade e ciúme persistam numa época em que as mulheres se livraram da sujeição aos homens e assumiram a plenitude da independência, franca liberdade sexual, várias formas de conjugalidade, livres para viver como quiserem - o amor a única razão para estar com alguém!
As respostas das mulheres foram muito além do ciúme e infidelidade. Falaram da falta de maturidade, responsabilidade e sinceridade dos homens; da falta de sensibilidade; conversa; diálogo; comunicação; alegria e ,surpreendente: da falta de amor! E mais: falta carinho, romance, intimidade, paixão, desejo e tesão. Disseram que falta liberdade, respeito, admiração, companheirismo e amizade. Queixaram-se da falta de paciência atenção, confiança, interesse, reciprocidade, cumplicidade, generosidade. Reclamaram da falta de tempo, pontualidade, dinheiro, segurança e organização. Várias mulheres anexaram folhas para anotar mais faltas. As mais diretas disseram que falta tudo.
Para essas mulheres, o relacionamento com os homens é responsável pelo mar de carência, lacunas e frustrações em que suas vidas afundam em infelicidade e amargura. A pergunta que não quer calar: por que ficar juntos, nessa situação? Tamanha incompetência dos homens é para esquecê-los. porém, casa-se como nunca, sem indícios de que os noivos possam poupar as noivas da frustração.
Não desista. Ao indagar dos problemas, as respostas são problemas, e excluem as mulheres felizes. Ao estender a todos os relacionamentos, e não só o atual, são negativas - quem está contente, nem pensa em mudar de parceiro(a)!
A pergunta de Freud - O que quer a mulher? - ficou sem sem resposta, e ela segue infeliz e queixosa. Talvez a pergunta seja: o que leva a mulher a crer que homem possa satisfazer todas as suas necessidades? Diz a professora Goldemberg: "Elas repetem exaustivamente: 'Falta homem no mercado'. Mas em que mercado é possivel encontrar o homem que satisfaça uma mulher?" Inexiste.
Os homens foram objetivos nas respostas. Citaram infidelidade, ciúme e falta de compreensão como principais problemas. Goldemberg cita a resposta do engenheiro de 54 anos, que ironiza a situação: "É impossivel dar a uma mulher tudo o que ela quer e precisa. Seria perfeito se cada uma tivesse pelo menos três homens. Um para sexo, romance, paixão. Outro, para carinho, proteção, atenção. E o terceiro para conversar, ver filmes inteligentes, ter discussões filosóficas. Acho que seria bom tambem ter um quarto homem cheio de grana, para pagar as contas, as viagens, os restaurantes sofisticado, os presentes caros. E um últmo que as faça dar risadas. O problema é que elas querem tudo num homem só. Que homem dá conta de tudo o que uma mulher quer?"
Se as mulheres deliram, homens também deviam delirar, como iniciantes eternos. Pés no chão, cabeça nas nuvens: razão e realidade não bastam. Não se pode aprender a amar, como não se pode aprender a morrer, diz Zigmund Balmer. É o mistério humano, uma paixão viva destinada á frustração final.
Quais os principais problemas que você vive ou viveu em seus relacionamentos amorosos? - perguntou a professora Mirian Goldenberg, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em sexualidade e conjugalidade, a homens e mulheres. Contradição instigante: sempre ouvi e ainda ouço maravilhas do amor e horrores dos relacionamentos.
Não surpreende que os problemas mais frequentes sejam infidelidade e ciúme - reflexos da incerteza do amor. Em toda época, cultura e civilização a dupla bomba. Daí a grande maioria dos romances, peças teatrais e filmes tratarem do tema. Surpreende é que infidelidade e ciúme persistam numa época em que as mulheres se livraram da sujeição aos homens e assumiram a plenitude da independência, franca liberdade sexual, várias formas de conjugalidade, livres para viver como quiserem - o amor a única razão para estar com alguém!
As respostas das mulheres foram muito além do ciúme e infidelidade. Falaram da falta de maturidade, responsabilidade e sinceridade dos homens; da falta de sensibilidade; conversa; diálogo; comunicação; alegria e ,surpreendente: da falta de amor! E mais: falta carinho, romance, intimidade, paixão, desejo e tesão. Disseram que falta liberdade, respeito, admiração, companheirismo e amizade. Queixaram-se da falta de paciência atenção, confiança, interesse, reciprocidade, cumplicidade, generosidade. Reclamaram da falta de tempo, pontualidade, dinheiro, segurança e organização. Várias mulheres anexaram folhas para anotar mais faltas. As mais diretas disseram que falta tudo.
Para essas mulheres, o relacionamento com os homens é responsável pelo mar de carência, lacunas e frustrações em que suas vidas afundam em infelicidade e amargura. A pergunta que não quer calar: por que ficar juntos, nessa situação? Tamanha incompetência dos homens é para esquecê-los. porém, casa-se como nunca, sem indícios de que os noivos possam poupar as noivas da frustração.
Não desista. Ao indagar dos problemas, as respostas são problemas, e excluem as mulheres felizes. Ao estender a todos os relacionamentos, e não só o atual, são negativas - quem está contente, nem pensa em mudar de parceiro(a)!
A pergunta de Freud - O que quer a mulher? - ficou sem sem resposta, e ela segue infeliz e queixosa. Talvez a pergunta seja: o que leva a mulher a crer que homem possa satisfazer todas as suas necessidades? Diz a professora Goldemberg: "Elas repetem exaustivamente: 'Falta homem no mercado'. Mas em que mercado é possivel encontrar o homem que satisfaça uma mulher?" Inexiste.
Os homens foram objetivos nas respostas. Citaram infidelidade, ciúme e falta de compreensão como principais problemas. Goldemberg cita a resposta do engenheiro de 54 anos, que ironiza a situação: "É impossivel dar a uma mulher tudo o que ela quer e precisa. Seria perfeito se cada uma tivesse pelo menos três homens. Um para sexo, romance, paixão. Outro, para carinho, proteção, atenção. E o terceiro para conversar, ver filmes inteligentes, ter discussões filosóficas. Acho que seria bom tambem ter um quarto homem cheio de grana, para pagar as contas, as viagens, os restaurantes sofisticado, os presentes caros. E um últmo que as faça dar risadas. O problema é que elas querem tudo num homem só. Que homem dá conta de tudo o que uma mulher quer?"
Se as mulheres deliram, homens também deviam delirar, como iniciantes eternos. Pés no chão, cabeça nas nuvens: razão e realidade não bastam. Não se pode aprender a amar, como não se pode aprender a morrer, diz Zigmund Balmer. É o mistério humano, uma paixão viva destinada á frustração final.
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