segunda-feira, 23 de maio de 2011

O EX-COMUNISTA

A CRÔNITA A SEGUIR É DE AUTORIA DE ZECA BALEIRO, CANTOR E COMPOSITOR. FOI TRANSCRITA DA COLUNA ÚLTIMA PALAVRA, EDITADA NA REVISTA ISTO É, Nº 2167, DA QUARTA SEMANA DE MAIO DE 2011. A CRIATIVIDADE DO AUTOR, NOS CHOCA, MAS É UMA REALIDADE QUE SEMPRE ENCONTRAMOS NO NOSSO DIA A DIA.


- O mundo precisa dos pobres. Demorei a entender isso, mas agora sei: o mundo sem pobres é inconcebível.
Aquela frase dita assim., de chofre, no meio de uma conversa informal. me chocou, confesso.
- Por muito tempo algumas pessoas lutaram pelo fim da pobreza. Eu próprio fui um deles. Mas agora entendo que a pobreza é necessária ao equilíbrio da planeta - ele continuou.
- Equilíbrio? Como assim?
- Imagine um mundo só de ricos... Um mundo em que ninguém precise de nada, que seja autossuficiente e abastado...
- Hmmm...
- Viu? Você nem consegue imaginar, porque é mesmo impossível. São esses pobres que sustentam o capitalismo, não os ricos. São os pobres que fazem a roda do capital girar. Onde há pobreza há desejo. Onde há desejo há consumo. Se as pessoas consomem, a rede da economia gira, entende?

Eu permanecia mudo. Embora reconhecesse que havia algo tecnicamente correto naquele raciocínio, sua fala me soava demasiadamente cínica. Prosseguiu em sua teoria.
- Quem são os maiores vendedores de discos?
- Os artistas populares, imagino, falei.
- Pois é, artistas populares, aqueles que são ouvidos pelos pobres, certo?
- Acho que sim.
- Quais as lojas com maior receita? As lojas que vendem artigos populares, certo?
- Acho que sim também, não sei...
- Eu sei, vai por mim. Melhor ter um boteco em Pirituba do que uma loja de chapéus de grife no shopping Iguatemi. O custo/benefício é mais vantajoso.
- Nunca parei pra pensar nisso.
- Rico não consome porque tem um desejo genuíno ou uma necessidade vital. Rico consome glamour, porque quer ser visto com o barco, o carro novo, a casa projetada pelo arquiteto hype... Pobre não. Pobre faz seu "puxadinho, ergue sua laje e fica feliz da vida, porque ainda que se orgulhe em mostrar pro vizinho, não o fez só por isso. Fez porque tinha a real necessidade daquilo.
E quem precisa fazer faz. Quem precisa comprar compra.
- Mas o capital está nas mãos dos ricos.
- Sim, mais foi ganho à custa de pobres, não de outros ricos.
- Sim, mas há serviços que pobres não consomem, apenas ricos.
- Sim, há. Mas nenhuma fortuna é erguida sem a participação dos pobres.
- Como assim?
- Tá vendo aquele condomínio de luxo? Imagina quantos pobres trabalharam para erguê-lo? E quantos outros agora trabalham para mantê-lo funcionando?
- Não sei.
- Muitos, acredite. Tá vendo aquele shopping acolá?
Entre e faça uma enquete. Aposto que há mais pobres circulando por lá do que ricos.
- Mas...
- Acredite no que tô falando. Dinheiro para o rico é esporte. Para o pobre é paixão.

23.05.2011.

J O D A F E.

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